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AS ESTAÇÕES DA INFÂNCIA
Histórias & Estórias
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AS ESTAÇÕES DA INFÂNCIA
Amílcar Ferrão Pinto 1
 
Cláudio Lopes começou a guardar os jornais e revistas. Ainda não eram quatro horas da tarde, mas havia cessado o já fraco movimento. Chovia fino e as pessoas só se aproximavam da banca para buscar proteção sob sua cobertura.

– Só vêm aqui para fugir da chuva e mexer nas revistas. Comprar, que é bom, nada! – dizia ele propositalmente, enquanto se apressava.

Naquela tarde, numa de minhas costumeiras idas à Praça Mauá, lembrara, junto com o Zé Roberto e o Cláudio, como antigamente as crianças dos bairros viviam, como eram seus brinquedos, tão diferentes dos de hoje. Cada dia era uma nova aventura, um mundo a ser descoberto. O tempo não se contava em anos ou meses; não importava se fazia calor ou frio, sol ou chuva. O presente parecia uma realidade perene: haveríamos de ser sempre crianças e nossos pais e avós teriam sempre a mesma idade, as mesmas feições, imutáveis; as ruas permaneceriam de terra, com poças d’água e valas lodosas; as casas – chalés, chácaras, bangalôs e sobrados – com velhos muros ou cercas carcomidas, jamais seriam derrubadas para dar lugar a prédios de apartamentos. A vida era uma fruição constante do presente. Não havia passado, não haveria futuro. Tudo seria sempre como já era. A infância, eterna.

O tempo, cujo fluxo transformador não se percebia, se assinalava pelo que eu chamaria de estações da infância e estas se caracterizavam por atividades ou brincadeiras próprias. Pode-se até dar à palavra estação acepção ambivalente, tanto com o significado de quadra do tempo quanto de estação mesmo, igual à estação de trem, porque chegávamos a uma estação ou dela partíamos como passageiros de uma viagem num trem fantástico.

Havia tempo de Natal, tempo de carnaval, tempo de balão, tempo de jogo de malha, tempo de figurinha, tempo de papagaio, tempo de jogo de botão, tempo de pião... Não era preciso consultar a folhinha para saber quando entrávamos numa estação ou quando a deixávamos. As crianças possuíam uma percepção extra-sensorial do momento de chegada ou de partida, como se uma natureza sobrenatural e insondável presidisse o mundo infantil.

Quero lembrar agora um pouco do tempo de balão, que deixava as crianças enlouquecidas. Ele se insinuava lá pelo mês de maio, para situá-lo no calendário dos adultos, quando, então, se viam no céu os primeiros balões. Era hora, portanto, de preparar tudo o que fosse necessário para sua confecção: folhas coloridas de papel de seda; arame para o bocal; breu, parafina e trapos de pano ou lona para a mecha; cola de arroz, de farinha de trigo ou goma arábica... Os balões surgiam de todos os quadrantes da cidade. Costumava contar os balões avistados, mas desistia dessa tarefa em pouco tempo diante do número assombroso que se alcançava e que passava de centenas. E todo menino da turma (que denominávamos trinca, expressão temível) desejava ser o primeiro a divisar o balão no céu, marcando esse achado com o grito “Olha lá um balão, primeirão!”

Havia de variados tamanhos e formatos, com e sem lanternas: tangerina, almofada, cruz, caixa, santos-dumont, estrela, cabeça-de-frade, pião... Mais tarde apareceram uns balõezinhos comprados já prontos em lojas do comércio, por isso mesmo chamados balões-de-loja.

A subida dos balões era um acontecimento eletrizante. Dava-se nas ruas ou nos quintais. As pequenas mãos dos deslumbrados meninos seguravam os gomos para manter o balão aberto enquanto a mecha era acesa. Com o ar aquecido, ele se soltava. Livre, imponente, ganhava altura, ao mesmo tempo em que os garotos exultavam aos gritos, correndo para acompanhar, do chão, a trajetória do balão no espaço. Depois, bem alto, ele se tornava apenas uma luzinha avermelhada que se perdia no meio de tantas outras.

Para não receber o anátema terrível de mariquinhas, o garoto precisava mostrar aptidão não apenas em fazer o balão, mas, sobretudo em disputar ferozmente a captura dos que caíam. Quando um balão já cumprira sua missão encantada, a mecha bruxuleava e se apagava e ele perdia altura, olhos atentos esquadrinhavam o céu e viam a direção da queda. Logo, hordas que pareciam surgir de dentro da terra corriam em busca do balão moribundo, de bojo enegrecido. Nas raríssimas vezes em que algum menino conseguia pegá-lo inteiro, o balão era apresentado na frente do grupo em correria como um estandarte de uma grande conquista. Normalmente, era despedaçado, ficando a boca de arame como prêmio de consolação. Tínhamos até uma espécie de ritual mágico para fazer com que caísse no lugar onde estávamos. Avistado o balão cadente, o menino dava-lhe as costas e, com os olhos no chão (não podia olhar porque o sortilégio não se realizaria), executava um movimento incessante com os braços como se estivesse puxando um fio invisível que ia até o balão, enquanto repetia as palavras: “Puxa, que te puxa, o rabo da bruxa!”.

Certa tarde, estava com uns oito ou nove anos, divisei um balão em rápida queda. Não tive dúvida. Passei a fazer sofregamente o ritual. Depois de alguns minutos, não resisti e olhei de soslaio (a fim de não quebrar o encanto) e vi um enorme santos-dumont, oscilando ao vento, próximo da copa das goiabeiras da casa de meu avô. Subitamente, um exército de pequenos soldados, pulando muros e atravessando quintais e galinheiros, com poderosa artilharia de paus e pedras, estraçalhou o balão que eu trouxera para perto. Perdi o balão, mas naquele dia ganhei absoluta certeza de que dominava uma força prodigiosa que ainda iria me servir.

Cláudio Lopes, antes de ir embora, sentenciou, referindo-se ao futebol de rua de outrora, assunto de alta relevância também abordado com freqüência em nossas reuniões:

– Se jogássemos hoje, estaríamos no Real Madrid!

Pegou a mochila e se encaminhou para o ponto de ônibus, não sem antes se voltar e repetir, convicto, com o dedo em riste:

– No Real Madrid!

A chuva apertou. Olhei em torno e deixei a Praça Mauá a passos rápidos.
 
1 Membro da Academia Santista de Letras, autor dos livros de poesia “Outro Lugar, Outro Tempo”, “Autocanto” e “Recolhimentos”