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Patrimônio cultural e a memória da metrópole: requalificação urbana e lazer no Brás - parte 1
Débora Dutra Vieira1
 
Resumo: O Brás, um dos mais antigos e tradicionais bairros de São Paulo, confronta-se hoje com um quadro de degradação fisica e marginalizaço social, fruto da segmentação do espaço e da negligência do poder público face às demandas da região central. Tal situação, contraposta à relevância histórica e cultural do bairro, nos convida a refletir acerca do lugar da memória e do patrimônio na metrópole, além de apontar para a necessidade de se propor alternativas de requalificação para as áreas centrais da cidade. No entanto, entende-se que requalificar um local não implica apenas intervir no seu espaço fisíco, mas também requalificar as relações que os habitantes mantêm com esse espaço, compreendendo, inclusive, sua condição de cidadãos. É nessa perspectiva que o patrimônio cultural pode dar uma contribuição efetiva e original para um possível programa de requalificaço das áreas centrais. Mas, para tanto, é preciso dissociar a concepção de patrimônio da idéia de mero objeto contemplativo, compreendendo-o enquanto elemento de interação morador/cidade. É fundamental, então, que o patrimônio contemple todos os segmentos socioculturais a fim de garantir a todos um canal de diálogo e de identificação com a cidade. No caso específico do Brás, resgatar e valorizar a diversidade cultural é essencial não apenas para requalificar a área, mas também para estimular práticas de lazer e turismo.









Introdução

São Paulo é a cidade do progresso, do capital, das oportunidades, da modernidade, do futuro. Essa é a imagem que, às portas do século XX, a capital paulista fazia de si mesma e reproduzia para o resto do País.

A vocação natural da metrópole para o desenvolvimento e para a opulência parecia encaminhá-la, inexoravelmente, para a concretização de um modelo civilizatório cosmopolita, como constata o historiador Nicolau Sevcenko2 .

No entanto, o referido autor observa que a expansão urbana de São Paulo não obedeceu a um plano ordenado e integrado, mas se configurou ao sabor dos loteamentos e da especulação imobiliária, que acabaram produzindo um mosaico em lugar de um todo orgânico e articulado3 .

Uma das conseqüências dessa lógica de crescimento foi o endosso4 a uma relação promíscua entre as esferas pública e privada que, por sua vez, repercutiu no cotidiano sob a forma de exclusão social, de segmentação do espaço físico e de desprezo pela preservação dos bens históricos e simbólicos.

Este estudo procura discutir a relevância do patrimônio cultural do Brás – um dos bairros mais antigos da cidade – por meio de reflexões acerca da preservação de sua memória e de seus bens materiais e imateriais, explorando o significado histórico e simbólico do local para a cidade de São Paulo, com a finalidade de apresentar este patrimônio como portador de valores que podem, efetivamente, contribuir para um processo mais abrangente de requalificação urbana.

A opção pelo Brás, além de uma experiência de mais de dez anos de trabalho no bairro, decorreu da constatação da existência (ou resistência) de vários bens relativos ao período da expansão urbana da metrópole paulistana (fim do século XIX e início do século XX), além do fato de que tais bens passam despercebidos para a maioria da população, e não recebem cuidados em termos de preservação.

Além disso, o Brás incorporou novos usos e costumes, absorvendo personagens, culturas e formas de sociabilidade diversas, característica esta bastante peculiar às áreas metropolitanas. Tal conformação, no entanto, acrescida do progressivo abandono e degradação aos quais foram submetidas as áreas centrais da cidade, ajudou a compor um quadro de descontentamento, indiferença e discriminação que se refletirá, dentre outros aspectos, na deterioração do espaço físico, na segmentação do espaço e no questionamento acerca da legitimidade de apropriação do mesmo, o que não deixa, também, de repercutir nas discussões a respeito do lugar do patrimônio na vida urbana.

Contudo, entende-se que o Brás é, potencialmente, um local habilitado para a interação sociocultural e para a fruição do patrimônio, seja em razão dos diversos grupos que aí se estabeleceram, seja por intermédio dos inúmeros bens que ainda resistem e registram a memória da “metrópole do café”. Assim, o bairro se apresentaria como local viável para práticas de lazer urbano e, possivelmente, de turismo cultural.

É importante, entretanto, que se façam aqui algumas observações: a questão da fruição da cidade por seus próprios moradores deve, necessariamente, permear as discussões acerca da requalificação de áreas urbanas, adotando o conceito de que os moradores da cidade não fazem turismo, mas aí usufruem suas horas de lazer; a expressão turismo cultural está sendo empregada no sentido de segmento da oferta turística (convencionalmente associada aos atrativos históricos e artísticos), mas não despreza o sentido amplo – e antropológico – do termo, que redimensiona a concepção de cultura estendendo-a a todas as atividades e formas de expressão humanas, absorvendo toda sua extensão e diversidade (o que acaba por fazer de toda atividade turística uma atividade cultural).

Dada a extensão geográfica do Brás, optou-se por concentrar o estudo em uma área restrita, um quadrilátero formado pelas ruas Caetano Pinto, Visconde de Parnaíba, Hipódromo e avenida Rangel Pestana que, além de serem endereços referenciais do bairro, ainda concentram parte significativa de seus marcos históricos e inúmeras construções de época, disseminadas pela área. Não obstante tal delimitação, o Brás é discutido como um todo, sem desprezar referências a outras localidades do bairro que extrapolem os limites aqui estabelecidos, caso se entenda necessário.

O trabalho está teoricamente fundamentado em quatro aspectos essenciais para o desenvolvimento do tema: a história, o patrimônio, o lazer e o turismo.

A abordagem histórica procura ressaltar os mecanismos de poder e os interesses que acabaram por configurar o espaço urbano, além de resgatar a presença de segmentos antes desprezados pela historiografia oficial sem, no entanto, descartar a contribuição de tal vertente.

Ressalte-se, ainda, que a expressão bairros históricos será empregada para designar os bairros mais antigos e mais documentados na história da cidade, sem entrar no mérito da discussão de que todos os bairros, assim como todas as cidades, portadores de uma trajetória de vida, são, efetivamente, históricos.

A concepção de patrimônio remete, sobretudo, a seu questionamento enquanto conjunto de bens de caráter único e monumental, veículo de cristalização do passado, instrumento de contemplação, reverência e coesão social.

É importante chamar a atenção para o fato de que o patrimônio não é um conceito acabado, mas uma construção ideológica que, no Brasil, começa a ser elaborada no período Vargas (1930-1945), quando autoridades e intelectuais, notadamente os modernistas, acabam buscando no patrimônio um elemento aglutinador representativo da nacionalidade e da identidade brasileira. Nessa oportunidade, seria ressaltada a herança colonial, compreendida como a mais pura expressão da cultura nacional. Tal concepção seria endossada pelos órgãos oficiais de defesa do patrimônio5 através da exaltação do barroco mineiro e da reverência às cidades históricas de Minas Gerais.

A despeito do passado colonial continuar sendo referência para muitas práticas de preservação, observa-se que a idéia de patrimônio se ampliou e extrapolou os limites da memória oficial. Elementos como cultura popular, diversidade e cidadania entraram na pauta dos debates sobre o lugar do patrimônio na vida das cidades e das pessoas, abrindo possibilidades para a expressão da memória de grupos que até então se encontravam excluídos das práticas preservacionistas.

No caso específico deste estudo, se procura apresentar o patrimônio como elemento de diálogo entre morador/cidade e turista/cidade, reflexo da diversidade e da capacidade de apropriação do espaço, características marcantes de metrópoles como São Paulo e, mais particularmente, de bairros como o Brás.

A questão do lazer, ou do preenchimento do tempo livre com atividades de lazer, também sustenta o texto na medida em que esse período traduz a melhor oportunidade de interação habitante/habitante e habitante/cidade, estimulando especialmente o processo de identificação dos indivíduos com o espaço. Mesmo uma possível atividade turística se transformaria em uma prática vazia, do ponto de vista da experiência humana, se realizada em áreas não habilitadas para a fruição da população local.

Por fim, o turismo é compreendido em duas dimensões: como atividade perfeitamente inserida na economia de mercado, que se caracteriza pelo deslocamento, pela permanência e pelo consumo, e que se encontra em um processo de segmentação de oferta (e daí o nicho cultural); e também como um meio de expressão cultural do homem contemporâneo. A primeira diz respeito à possibilidade concreta de implementação da atividade, a segunda concerne ao princípio que deve reger tal atividade, ou seja, apesar de se constituir em produto do mercado, o turismo não deixa de ser, fundamentalmente, uma prática cuja personagem central é o ser humano, e em seu benefício deve ser planejada.

Por meio da reflexão norteada pelos conceitos acima apontados, o estudo vislumbra uma real possibilidade do patrimônio revitalizado contribuir, em um plano mais geral, para uma proposta de requalificação urbana do Brás, desde que, é importante frisar, tal procedimento respeite e valorize a memória de todos os sujeitos sociais que aí construíram sua história, e a presença daqueles que hoje ocupam os seus espaços.

Nessa perspectiva, um fator chama a atenção: a produção bibliográfica consultada sobre o Brás, de maneira geral, ressalta o período dominado pelos imigrantes italianos e despreza a presença de outros segmentos, notadamente os migrantes nordestinos Observou-se um flagrante desinteresse pela história e memória desses migrantes, traduzido pela ausência, ou omissão, de informações, por meras referências ao final dos textos (geralmente em tom de pesar) e, até mesmo, por discursos ofensivos e claramente discriminatórios. Nota-se, também, que tal postura não é exclusiva dos materiais impressos, sendo igualmente reproduzida pelos veículos de comunicação e por órgãos e instituições públicas e privadas que, por sua vez, acabam endossando a idéia de que imigração é sinônimo de progresso e harmonia, e de que migração revela atraso e degradação, decorrendo daí a concepção de que a história da primeira é digna de ser registrada e preservada, e a da outra, não.

A progressiva degradação do Brás – acompanhada de perto no período de 1988 a 1999 – instigou a reflexão acerca de qual será o destino dos locais que são, reconhecidamente, referências históricas de São Paulo, os quais se encontram esquecidos pela população, pelos meios de comunicação e pela municipalidade. Observa-se o descaso com a preservação dos bairros históricos (simbólica e material), o que, indubitavelmente, acelerou seu processo de deterioração, corroborado, ainda, por um poder público que pouco interesse tem em canalizar investimentos para áreas predominantemente populares.

No entanto, existem possibilidades concretas de recuperação desses espaços e, em última análise, de recuperação da cidade, e o caminho a ser trilhado passa necessariamente pela valorização da memória urbana e da diversidade cultural.

Ainda há salvação? Acho que sim. É só São Paulo resgatar sua memória, seu projeto histórico, o que ela significou para essa população que fez dela, em tão pouco tempo, um marco metropolitano em escala mundial. Gente que vem de todas as partes do Brasil, de todas as partes do mundo, percebendo em São Paulo essa perspectiva de promoção social, de progressiva participação no processo decisório e numa gestão capaz de representar a criação de uma sociedade cada vez mais distributiva, multicultural, tolerante e promissora de um padrão de democracia moderna.
Esse é o projeto embutido em São Paulo. É o valor que está incrustado na memória histórica. É importante para trazer de volta à tona esse sonho, essa perspectiva, essa expectativa e fazer com que ela seja o sopro que anima a população a reformular todo o extraordinário equívoco que, a partir dos anos 30, entregou essa cidade à sanha dos automóveis, dos fluxos de trânsito e da especulação selvagem
6.


Diante do otimismo demonstrado por Nicolau Sevcenko frente o futuro da cidade, fica a expectativa, então, de que uma política de valorização do patrimônio possa se constituir em um fator que, além de trazer benefícios estéticos e econômicos para o local, contribua para a melhoria da qualidade de vida dos moradores, até mesmo na sua condição de cidadãos, através do reconhecimento dos diferentes grupos como agentes singulares atuantes na configuração do bairro e, portanto, dignos de terem preservada a sua memória.



1. Brás: um bairro, múltiplas perspectivas
A história do Brás se confunde com a história da própria São Paulo. A trajetória do bairro contempla os fenômenos fundamentais que definiram a imagem da capital paulista, espelhando os interesses, as contradições, as ações e as omissões que orientaram o processo de metropolização de São Paulo.

Imigração, industrialização, urbanização e migração são fatores que marcaram profundamente a vida do bairro – assim como a da cidade – e estão diretamente relacionados a muitos dos problemas que hoje afetam a região.

A história do Brás foi construída por diversos agentes sociais que, naturalmente, a interpretam e relatam a partir de diferentes perspectivas. Este capítulo procurará explorar a originalidade desse espaço que, apesar de ser único, produz e reproduz um universo complexo e múltiplo, permeado por traços de solidariedade e de preconceito, de receptividade e de segmentação do espaço, de participação e de exclusão.


Um lugar, tantos lugares: momentos da história do Brás

A ocupação do espaço que daria origem à atual cidade de São Paulo teria início na metade do século XVI, com o estabelecimento de um povoado no planalto paulistano, em uma área de clareira natural próxima ao litoral (os Campos de Piratininga). Seu núcleo, derivado da presença de uma aldeia jesuítica, se fixaria estrategicamente no topo de uma colina (atual Pátio do Colégio), cuja elevação de 25 a 30 metros acima da planície formava um espigão divisor das águas dos rios Anhangabaú e Tamanduateí, de onde se poderia avistar um vastíssimo horizonte7 .

Naturalmente, tal localização geográfica proporcionaria ao povoado uma situação privilegiada no que concerne à defesa e à comunicação, pois facilitaria a proteção do lugar contra eventuais hostilidades indígenas e, em se tratando do centro de um sistema hidrográfico, permitiria uma maior mobilidade graças às vias naturais de acesso, tanto para fins exploratórios como para a interação dos futuros povoados do planalto.

Assim, acompanhando os leitos dos rios e contrastando com as elevações do maciço paulistano, estendiam-se os terrenos planos – as várzeas – de onde irradiariam os primeiros caminhos terrestres em direção ao interior, como a estrada que ligaria a vila de São Paulo ao Vale do Paraíba (via freguesia da Penha) e, posteriormente, à Corte, e ao longo da qual surgiriam novos povoados que viriam a se transformar em freguesias e bairros da futura cidade, dentre os quais o Brás.

Desde sua formação como núcleo de povoamento, São Paulo se caracterizaria como área de intercâmbio econômico entre o planalto e o litoral. No entanto, durante longo tempo tal núcleo se restringiria aos limites do chamado “Triângulo” central (atuais ruas Direita, XV de Novembro e São Bento), onde predominaria um “casario formado por simples aglomerado de modestíssimas habitações de taipa cobertas de sapé”8 , habitado por uma população de cerca de mil pessoas, etnicamente composta por mamelucos, brancos e índios e cuja vida social gravitaria em torno do colégio dos jesuítas9 .

No mais, extrapolando os limites urbanos do povoado, se configuraria uma vasta zona rural com a qual a vila se articularia, sobretudo economicamente:

Para além do núcleo urbano, disseminadas pelos vales fluviais, até aos arredores das várzeas do Tietê e do Pinheiros, as fazendas da zona rural e os aldeamentos indígenas completavam o estabelecimento colonial do planalto, como elementos econômicos e demográficos10.


Durante o século XVII São Paulo conheceria um período de estagnação social e econômica. Não conseguiria se expandir e chegaria, até mesmo, a perder população em virtude do apelo econômico despertado pela extração de ouro na região das minas, fenômeno este que, inclusive, incrementaria a formação das famosas Bandeiras.

A expansão dessas expedições faria de São Paulo local de convergência de grupos que chegavam e partiam rumo ao interior. Contudo, tal movimento não resultaria em desenvolvimento urbano ou econômico para o local, que chegaria a adquirir, nesse período, uma nova distinção político-administrativa: a de sede da capitania de São Vicente, em 1681.

Tal situação começaria a se reverter, lentamente, no transcorrer do século XVIII, com a decadência das minas, a ascensão política representada pela elevação da vila de São Paulo à condição de cidade, em 1711, e o surgimento de uma incipiente função comercial, despertada pela consolidação das estradas que ligavam a cidade a outros povoados.

São Paulo se firmaria como centro de irradiação e convergência de caminhos que levariam a regiões cada vez mais distantes: a oeste abriria-se o caminho para o Mato Grosso; ao norte, via Triângulo Mineiro, se chegaria às minas de Goiás; a sudoeste a estrada rumo aos campos de Sorocaba e Itapetininga se prolongaria até os atuais Estados do sul do país; a nordeste se regularizaria o caminho que, através da freguesia da Penha, chegaria às cidades do Vale do Paraíba e do Rio de Janeiro.

Como se vê, através de toda história colonial da capitania, São Paulo ocupa o centro do sistema de comunicações do planalto. Todos os caminhos, fluviais ou terrestres que cortam o território paulista vão dar nele e nele se articulam. O contato entre as diferentes regiões povoadas ou colonizadas se faz necessariamente pela capital. O intercâmbio direto é impossível [...] Mas não é só esta posição central na grande encruzilhada do planalto que dá a São Paulo na era colonial a preeminência que sempre desfrutou. É ele, além disto, o ponto intermediário, a escala necessária das comunicações entre o planalto e o litoral. É o Caminho do Mar, a antiga trilha dos índios transformada em principal artéria da capitania, que realiza quase todo o contato entre aquelas duas seções do território paulista11.


Ainda no século XVIII, se observaria um novo fenômeno que viria a influenciar a configuração da cidade: o desmembramento de propriedades rurais em pequenas e médias propriedades, seja devido às dificuldades de manutenção de áreas muito extensas, seja em virtude do rareamento dos terrenos concedidos pelo poder público.

Muitas dessas áreas, servidas por estradas cada vez mais movimentadas, além de abrigarem chácaras de moradia fixa e atividade produtiva, também seriam ocupadas por casas de campo de moradores da zona urbana de São Paulo, que ao final do período setecentista contaria com 9.359 habitantes, segundo recenseamento realizado em 179412 .

1. O Brás rural
Inseridas nesse quadro estariam as terras baixas próximas ao rio Tamanduateí, que apresentariam uma população bastante reduzida. Na região do Brás, por exemplo, o povoamento se daria lentamente, em torno da Capela do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, erigida em 1803 por um proprietário de terras local, um português de nome José Brás. Tal Capela seria elevada à condição de freguesia em 1818 por D. João VI e se tornaria passagem obrigatória para romeiros, tropeiros e viajantes que se dirigissem à freguesia de Nossa Senhora da Penha, aos povoados do Vale do Paraíba e ao Rio de Janeiro.

Outro fator que contribuiria para a firmação da nova freguesia, seria a inclusão da Capela do Bom Jesus como parada obrigatória da tradicional procissão de Nossa Senhora da Penha, que previa um percurso até a freguesia da Sé através da Estrada da Penha13 . O interesse e a mobilização que tal procissão despertava ajudariam a dinamizar o povoado do Brás e estreitariam seus laços com o centro urbano.

É interessante observar que as vias de circulação cumpriam, até então, uma “mera função de trajeto”. Na ocasião das procissões, porém, assumiriam um caráter mais urbano, pois se constituiriam também em um espaço de identificação e encontro:

Para aquela sociedade sedenta de ocupar com gente sua o solo conquistado [...] a religiosidade transformava-se provavelmente em imperiosa manifestação, ostensiva se possível. E a procissão foi a forma que convinha a todos: aos paulistas das fazendas que apesar de suas capelas particulares não podiam ter sempre um padre à mão; à autoridade que assim atraía periodicamente seus habitantes à cidade; aos jesuítas que, por meio de festejos ou espetáculos, davam mais brilho e eficiência a seu trabalho de catequese [...] [as procissões] foram uma das forças sociais aglomerantes da sociedade paulistana.14


Até meados do século XIX o Brás manteria um aspecto predominantemente rural, onde prevaleceriam as chácaras pertencentes às ricas famílias (residentes ou não) além de moradias mais humildes, geralmente de taipa “de mão”, e alguns pontos de comércio, especialmente gêneros alimentícios, artigos para montarias e carroças e ferreiros (em função da estrada).

A paisagem da região chamaria a atenção de viajantes como Saint-Hilaire, que de passagem pela freguesia, em 1822, registraria em seus escritos as características do lugar:

A planície é perfeitamente regular e apresenta uma agradável sucessão de pastos de capim rasteiro e de tufos de árvores de pequena altura. Os habitantes de São Paulo dão-lhe a denominação de várzea. Nas partes mais úmidas o terreno é pontilhado de pequenos outeiros cobertos por uma relva espessa [...] na estrada vê-se um grande número de casinhas, onde se acham instaladas as vendas [...].15


No mais, a própria cidade de São Paulo, à exceção da área do “Triângulo” e adjacências, ainda conservaria um aspecto bastante provinciano, com edificações modestas dentre as quais, além de conventos e igrejas, se destacavam os dois mais importantes edifícios públicos: o Palácio do Governo e a Câmara Municipal16 .

A atividade econômica se concentraria na agricultura, em pequenas manufaturas de fiação de lã e de algodão, em olarias e na oferta de serviços necessários à comunidade, prestados por carpinteiros, marceneiros, alfaiates, sapateiros, ferreiros, etc.

Em termos populacionais, segundo recenseamento realizado em 1836, São Paulo contaria 21.933 habitantes, distribuídos por dez freguesias. No entanto, ao “centro urbano” corresponderiam apenas três delas: Sé, Santa Ifigênia e Brás, que responderiam por um total de 9.391 pessoas17 .

As primeiras décadas do século XIX se constituiriam em um período de reorganização econômica e de retomada do crescimento da cidade, fenômenos estes impulsionados pela revitalização da atividade agrícola, pelo declínio da mineração e pela emergência de um novo quadro político que se delinearia após a proclamação da independência do país, em 1822.

São Paulo também consolidaria seu status de centro econômico da província, uma vez que continuaria a intermediar os negócios, cada vez mais volumosos, entre o interior (que se expandia graças ao plantio de cana e de café) e o litoral, que controlava a distribuição de produtos através do porto de Santos.

No que diz respeito, particularmente, à várzea do Tamanduateí, se observaria a política de concessão de terras avançando as três primeiras décadas do século XIX. Porém, a ausência de critério e rigor na demarcação dos terrenos acarretaria, além de disputas limítrofes, a conformação irregular do traçado das vias de circulação e a construção de casas fora do alinhamento.

Diante desse quadro, e na tentativa de organizar minimamente o espaço, o poder público condicionaria a concessão de novos lotes de terra à apresentação de um plano de arruamento, a partir de 1831.

As próprias características físicas da região, onde predominavam os terrenos pantanosos, também contribuiriam para o confuso traçado das ruas do Brás. Esse fator, inclusive, retardaria o processo de povoamento da área, pois a mesma se encontraria constantemente sujeita às inundações da várzea que, conseqüentemente, exporiam a população residente a inúmeras moléstias.

Até o início da década de 70, o Brás do século XIX, apesar de estreitar suas relações com o centro urbano, ainda se configuraria como um bairro eminentemente rural, com escassa população18 , poucas construções – concentradas nas proximidades da Igreja do Bom Jesus – e economicamente voltado para a pequena agricultura.

Retornemos aos idos de 1841; a então freguesia do Senhor Bom Jesus de Matosinho, já com a denominação de freguesia do Brás, continuava como se estivesse separada de São Paulo, mais parecia um pacato vilarejo do interior. As ruas de terra batida, na maioria intransitáveis e cheias de buraco; podiam-se divisar aqui e acolá muitos animais soltos, que pastavam sossegadamente por trilhas e ruas mal traçadas [...] De vez em quando, aquela monotonia era quebrada pelo ranger das rodas de algum carro de boi que se dirigia em direção à cidade [...].19



2. O Brás urbano e industrial
Os últimos anos da década de 60 e, principalmente, os anos 70 do século XIX seriam marcados por uma profunda transformação no perfil da cidade e, particularmente, do bairro do Brás. Surgiriam no cenário paulista as lavouras de café, as estradas de ferro, os imigrantes e as indústrias.

A princípio, a cultura cafeeira se desenvolveria em regiões próximas ao litoral norte da província e ao longo do Vale do Paraíba, excluindo-se, então, da área de influência da capital. A distribuição do produto era realizada, sobretudo, através dos portos de São Sebastião e do Rio de Janeiro.

O surgimento e consolidação de novas áreas férteis ao norte e a oeste da província, aliado à decadência das antigas regiões produtoras, redirecionariam o eixo da dinâmica cafeeira para a cidade de São Paulo, beneficiada, fundamentalmente, pela expansão da malha ferroviária. Esta situação consolidaria, definitivamente, a cidade como elo das relações entre as áreas produtivas e o principal ponto de escoamento da produção: o porto de Santos, alçando-a à condição de centro nevrálgico da cadeia produtiva do café.

A cafeicultura e toda estrutura por ela implementada (transportes, setor financeiro, urbanização), propiciariam um incrível crescimento à cidade de São Paulo que, cada vez mais dinamizada, iria progressivamente perdendo seu aspecto provinciano e ganhando ares de metrópole.

O advento das estradas de ferro se constituiria em um marco no crescimento da cidade, pois além de exercerem uma crucial função no processo de escoamento do café, as ferrovias desempenhariam também um papel fundamental no desenvolvimento de muitos bairros outrora estagnados, uma vez que seus trilhos acompanhariam as terras baixas da várzea, ao nível dos rios, e valorizariam exatamente as áreas antes evitadas pela população.

No caso do Brás, o primeiro grande impulso rumo ao crescimento viria com a construção da chamada Estrada de Ferro Inglesa, a “São Paulo Railway”, cuja estação seria inaugurada em 1868. Unindo o interior da província (produtor) ao porto de Santos, atravessaria a várzea do Tamanduateí e, praticamente, cortaria o bairro ao meio. Aqui também começaria a história de um obstáculo que se tornaria marco da região por um longo período: as porteiras do Brás. Criadas para assegurar a passagem de veículos e pedestres no cruzamento da ferrovia, se constituiriam, a partir de então, em permanente transtorno para todos os freqüentadores do lugar.

Outro fator decisivo para o desenvolvimento do bairro seria a inauguração da Estrada de Ferro do Norte (futura Central do Brasil), em 1877, um entroncamento da linha da Inglesa que acompanharia o rio Tietê no sentido leste, chegando até o Rio de Janeiro. Além da ferrovia, no mesmo ano, seria também inaugurada a Estação do Norte. Localizada praticamente no centro do Brás, ela passaria a ser o ponto de referência do bairro, o mais importante elo de ligação com as demais regiões da cidade.

Essas duas estradas de ferro modificariam as características de diversos bairros de São Paulo afora o Brás, caso do Ipiranga, da Moóca, da Barra Funda e da Lapa, dentre outros. Ao longo desses trilhos se instalariam várias indústrias e, conseqüentemente, para essas áreas seriam atraídos inúmeros trabalhadores, quer pela oferta de empregos, quer pelos baixos preços dos terrenos da várzea. Assim, essa mobilização de mão-de-obra delinearia um novo perfil para essas regiões, transformando-as em bairros predominantemente operários.

Do final dos anos 30 ao início dos anos 70 do século XIX, a população paulistana, que contava cerca de 29.000 habitantes em 1836, passaria a ser de 31.000 em 1872, apresentando um lento e, até mesmo, inexpressivo crescimento se comparado à verdadeira explosão demográfica que se verificaria nas décadas seguintes.

O Brás saltaria, porém, de 659 para 2.308 habitantes entre 1836 e 187220 , o que demonstra um crescimento mais acelerado desta região em relação à cidade como um todo, reflexo da presença da ferrovia (Inglesa) e do início do processo de ocupação dos terrenos da várzea.

No último quartel do século XIX, com a inauguração da Estrada de Ferro do Norte, a malha ferroviária se tornaria mais complexa e articularia cada vez mais as diferentes regiões da cidade, e esta com o interior da província. As áreas industriais começariam a se consolidar, bem como os bairros operários.

A fisionomia de São Paulo se alteraria profundamente a partir desse período, conseqüência da regularização do traçado urbano, da abertura de novas vias de circulação e da formação de espaços com características socioeconômicas mais bem definidas. Também surgiriam os primeiros núcleos de habitações coletivas, notadamente os cortiços.

A capital começaria, então, a perder aqueles elementos que lembravam seu “passado rústico”, como as procissões e as festas:

A cidade perderia [...] seus aspectos mais tradicionais e provincianos nessa época sem que esses traços fossem substituídos por qualquer fisionomia bem definida, e muitas vezes sem que o poder público pudesse dar solução aos problemas que se colocavam – tamanha era a rapidez com que se processava o seu crescimento21
.

A partir de 1870 a imigração também assumiria um papel decisivo na estrutura cafeeira22 e, posteriormente, no processo de metropolização de São Paulo, sobretudo após a intervenção do governo do Estado – subvencionando a política imigrantista – e a criação da Sociedade Promotora da Imigração23 .

O Brás seria para muitos imigrantes, sobretudo italianos, a porta de entrada para a cidade24 . Atraídos e incentivados a emigrar para o Brasil em busca de melhores condições de vida, uma vez que as plantações de café careciam de braços, inúmeras famílias desembarcariam no porto de Santos, seriam transportadas de trem para São Paulo e aí alojadas às custas do próprio governo paulista em abrigos para elas planejados.

A primeira hospedaria de imigrantes da cidade se localizaria no bairro do Bom Retiro. Porém, devido às péssimas condições de funcionamento e ao grande contingente de pessoas a abrigar, o presidente da província Antônio de Queiroz Telles (Visconde de Parnaíba), um entusiasta da imigração subvencionada, faria construir durante a sua gestão (1886-1887) um novo albergue no Brás25 com capacidade para acolher mais de dois mil imigrantes, que daí seriam distribuídos para os cafezais do interior, muitas vezes levados pelos próprios fazendeiros que se dirigiam à hospedaria a fim de contratar pessoalmente os trabalhadores26 .

Os centros urbanos também receberiam uma parcela significativa de imigrantes, sobretudo os contingentes que emigravam espontaneamente, desvinculados da política de subvenção. Tais grupos se estabeleceriam quase que totalmente nas cidades, e a estes se juntariam também os imigrantes que viriam a abandonar o campo, desencantados com as condições encontradas nas fazendas de café.

Desta feita, os imigrantes participariam efetivamente do processo de urbanização e industrialização de São Paulo, onde predominariam enquanto mão-de-obra e também como proprietários industriais. O Brás, graças à presença da ferrovia, das fábricas e da Hospedaria seria um dos locais preferidos pelos recém-chegados, majoritariamente italianos, para fixar residência na cidade.

As últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX seriam marcadas pela intensa urbanização de São Paulo. As antigas chácaras do Brás iriam, aos poucos, desaparecendo ou se transferindo para áreas mais distantes do centro.

O efetivo arruamento do bairro se realizaria a partir do retalhamento dessas propriedades, cujos terrenos viriam a ser loteados e vendidos, propiciando o surgimento de ruas mais alinhadas e servidas de infra-estrutura pública, ao longo das quais se mesclariam moradias e fábricas.

A população do Brás, em cerca de vinte anos, cresceria progressiva e intensamente, fruto da presença das indústrias, do afluxo de mão-de-obra e das melhorias implementadas no bairro, nas vias e nos meios de circulação27 . De 2.308 habitantes em 1872, o local passaria a abrigar 5.998 pessoas em 1886, 16.807 em 1890 e 32.387 em 189328 .

A cidade de São Paulo como um todo conheceria uma verdadeira explosão demográfica na última década do século XIX, quando a população praticamente quadruplicaria, passando de 64.934 habitantes em 1890 para 239.934 em 190029 .

A área da capital se expandiria ininterruptamente. Atingiria os esparsos povoados que circundavam a região do “Triângulo”, os abarcaria e os integraria à vida urbana através da regularização e ampliação das vias de comunicação. .
 
1 Débora Dutra Vieira é historiadora, graduada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e mestre em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano. Desenvolve pesquisas na área de Patrimônio Cultural e Turismo, atuando também no mercado editorial.

2 SEVCENKO, Nicolau. Não temos a menor idéia: a tragédia da metrópole que prometia ser modelo de civilização cosmopolita e hoje vive aturdida, sem saber como sair do caos. Carta Capital, ano 6, n. 7, p. 24.

3 Ibidem, p. 26.

4 O relacionamento permissivo envolvendo o poder o público e os interesses privados no Brasil não surge apenas nesse período, mas se manifesta desde a época colonial. Dentre os livros que tratam do assunto destaco a obra de Raymundo Faoro, Os donos do poder.

5 O SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) foi criado em 1937.

6 SEVCENKO, Nicolau, op. cit. p. 34.

7 PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos. p. 96.

8 SILVA, Raul A. São Paulo nos tempos coloniais. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.). A cidade de São Paulo: estudos de geografia urbana. p. 20.

9 O povoado de São Paulo seria elevado à categoria de vila em 1560, adquirindo, assim, uma nova função: a político-administrativa.

10 SILVA, Raul A. São Paulo nos tempos coloniais. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.), op. cit. p. 21.

11 PRADO JÚNIOR, Caio, op. cit. p. 102.

12 SILVA, Raul A. São Paulo nos tempos coloniais. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org), op. cit. p. 40. É oportuno que se registre, nesse período, o aumento da parcela de negros na população, comercializados como escravos para fins de mão-de-obra na agricultura e no trabalho doméstico.

13 A antiga Estrada da Penha seria chamada, posteriormente, avenida da Intendência e, atualmente, corresponderia ao corredor Rangel Pestana/Celso Garcia.

14 WILHEIM, Jorge. São Paulo, metrópole 65: subsídios para seu plano diretor. p. 56-57.

15 SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem à província de São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976. p. 147-148. Apud REALE, Ebe. Brás, Pinheiros, Jardiins: três bairros, três mundos. p. 7.

16 MATOS, Odilon N..São Paulo no século XIX. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.), op. cit. p.52-53.

17 Ibidem, p. 55. O Brás, especificamente, contaria com 659 habitantes, dos quais 328 brancos, 175 mestiços e 156 negros. (p. 58).

18 Por essa época encontramos a freguesia do Brás com quase 1.000 habitantes. A maioria morava no centro da cidade e só comparecia à freguesia em fins de semana, nos meses das festas Juninas ou em épocas do Natal e fim de Ano. Nos outros dias os casarões, que então existiam espalhados pelas chácaras e sítios, eram habitados pelos caseiros que durante o dia trabalhavam na lavoura. SESSO JR, G. Retalhos da velha São Paulo. p. 51.

19 Ibidem, p. 49-51.

20 TORRES, Maria Celestina T. M. O bairro do Brás. p. 91.

21 BRUNO, Ernani Silva. História e tradições da cidade de São Paulo. v. 3. p. 912.

22 É fundamental lembrar que a conjuntura nacional, nesse período, era marcada pela crise da sociedade escravocrata, que redundaria na abolição da escravatura em 1888, e pelo desgaste político da monarquia, que culminaria com a proclamação da República em 1889.

23 A Sociedade Promotora da Imigração, fundada em 1886 por fazendeiros paulistas, respondia pela introdução de mão-de-obra estrangeira no Estado de São Paulo e pela administração da Hospedaria dos Imigrantes.

24 A ênfase dada à imigração italiana se justifica não apenas em função da quantidade de imigrantes, mas sobretudo à profunda influência que exerceu sobre o bairro do Brás. No entanto, é importante registrar a significativa presença da comunidade espanhola, além da portuguesa, libanesa e judaica.

25 A antiga hospedaria dos imigrantes, oficialmente inaugurada em 1888, encerrou suas atividades em 1978. O complexo arquitetônico onde funcionava foi tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) em 1982, assim como seu acervo arquivístico. Hoje abriga o Memorial do Imigrante, aberto à visitação pública de terça-feira à domingo das 10h00 às 17h00, à rua Visconde de Parnaíba 1316, no Brás.

26 Vale observar que, concomitante à chegada de trabalhadores estrangeiros, também afluíram para São Paulo trabalhadores nacionais procedentes de regiões menos dinamizadas do País. Contudo, o volume de imigrantes nessa época fez com que a migração interna passasse mais despercebida. No início do século XX, porém, especialmente na década de 20, se verificaria uma entrada significativa de migrantes com destino às fazendas de café (mais de 100 mil trabalhadores). PETRONE, Maria Tereza S. Imigração. In: FAUSTO, Boris (Dir.). História geral da civilização brasileira. Tomo 3, v. 9, p. 132.

27 A partir de 1872 as ruas do bairro receberiam iluminação à gás, fornecida pela Cia. Inglesa São Paulo Gás Co. Ltda., instalada à rua do Gasômetro. Já em 1877 chegaria ao Brás a primeira linha de bondes (com tração animal), um prolongamento da linha da Cia. Carris de Ferro que faria da recém inaugurada Estação do Norte seu ponto final (posteriormente seus trilhos se estenderiam até a Penha). As primeiras linhas de bondes elétricos seriam inauguradas em 1900.

28 TORRES, Maria Celestina T. M., op. cit. p. 112.

29 MATOS, Odilon N. São Paulo no século XIX. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.), op. cit. p. 82.

30 WILHEIM, Jorge, op. cit. p. 13.

31 No caso, o proprietário retalhava o terreno e vendia parte dos lotes, originando assim um núcleo habitacional. Posteriormente, passava a pressionar o poder público para que se implementassem melhorias na área (saneamento básico, iluminação, etc.). Após conseguir os benefícios, o proprietário vendia os terrenos restantes, já valorizados.

32 Nas duas primeiras décadas do século XX São Paulo passaria de quase 240.000 para 579.033 habitantes. Em 1920, cerca de dois terços dessa população era formada por estrangeiros e seus descendentes. PETRONE, Pasquale. São Paulo no século XX. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.), op. cit. p. 125. PETRONE, Maria Tereza S. Imigração. In: FAUSTO, Boris, op. cit. p. 120.

33 ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. p. 28.

34 Segundo recenseamento realizado em 1920, o Brás responderia por um total de 66.883 habitantes, ou seja, por mais de 10% dos moradores da capital (TORRES, Maria Celestina T. M., op. cit. p. 212).

35 Movimento deflagrado por setores descontentes das Forças Armadas, sobretudo oficiais de baixa patente que, desde o início do período republicano, rebelavam-se contra o poder central instituído. Em 1922, o movimento – tenentismo – ganharia visibilidade com o episódio do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Em 1924 atingiria parcelas minoritárias das guarnições de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Na capital paulista, Moóca e Brás, devido à proximidade com a região da Luz (local onde se concentravam os rebeldes) seriam palco dos conflitos mais acirrados entre os revoltosos e as tropas legalistas. Os dois bairros chegariam a ser bombardeados, e parte de seus moradores viria a abandonar suas casas.

36 PICCINI, Andrea. Cortiços na cidade: conceito e preconceito na reestruturação do centro urbano de São Paulo. p. 28.

37 TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. p. 138.

38 ARAÚJO FILHO, J. R. A população paulistana. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.). Op. cit., p. 179, 237.

39 A Estação do Norte mudaria de nome em 1945, passando a se chamar Estação Presidente Roosevelt, em homenagem ao político norte-americano.

40 A festa de Nossa Senhora de Casaluce se realiza durante todos os finais de semana do mês de maio, e a de São Vito nos finais de semana de junho, em suas respectivas paróquias.

41 Desde que a ferrovia cortou o Brás ao meio e o bairro se definiu territorialmente enquanto área fabril e operária, já se podia verificar a existência de duas áreas com características um pouco distintas: a região da rua Caetano Pinto e da igreja Matriz apresentava um traçado mais regular e organizado, onde predominavam moradias e indústrias. Já a área próxima à estação e ao Largo da Concórdia era dominada pelo comércio, pelos teatros e pelos cinemas, sem deixar, no entanto, de abrigar fábricas e residências. Contudo, até a inauguração dos viadutos, as duas partes se complementavam e articulavam o bairro.

42 PETRONE, Pasquale. São Paulo no século XX. In: AZEVEDO, Aroldo de (Org.), op. cit. p. 158.

43 Ibidem, p. 191.

44 PATARRA, Neide et al. (Org). Migração, condições de vida e dinâmica urbana: São Paulo, 1980-1993. p. 44.

45 Ibidem, p. 42.

46 TORRES, Maria Celestina T. M., op. cit. p. 217.

47 BRÁS. São Paulo: memória em pedaços. São Paulo. TV Cultura, 25. jan. 1999. Programa de TV.

48 FRÚGOLI JÚNIOR, Heitor. São Paulo: espaços públicos e interação social. p. 33.

49 Em 1996 o bairro contaria 26.665 moradores. A população paulistana somaria 9.839.066 habitantes. SP em movimento. Folha de S. Paulo, 2. set. 2000, p. C4.

50 Registre-se, ainda, o grande número de coreanos que se estabeleceram no Brás, principalmente como proprietários de confecções, e também o contingente de imigrantes bolivianos – clandestinos em sua maioria – que, freqüentemente, subempregam-se nas confecções coreanas.

51 RIBEIRO, Suzana B. Italianos do Brás: imagens e memórias, 1920-1930. p. 155.

52 É importante registrar que uma parcela significativa de migrantes não procedia da região semi-árida, e sim da zona da mata nordestina – área próxima ao litoral, densamente povoada e onde se desenvolveram as atividades econômicas mais importantes da região, como as agro-indústrias da cana e do algodão. Não obstante o fato da maioria dos migrantes estar vinculada à estrutura agrária, não foram apenas trabalhadores rurais que abandonaram seus locais de origem. As populações urbanas das grandes cidades e das capitais regionais do Nordeste – que também receberam fluxos migratórios – igualmente se deslocaram em direção ao centro-sul. VESENTINI, José W. Brasil: sociedade e espaço. 14. ed. São Paulo: Ática, 1991.

53 SINGER, Paul. Economia política da urbanização. p. 57.

54 Ibidem, p. 47.

55 SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. p. 40.

56 Georg Simmel, sociólogo alemão do início do século XX, entendia as sociedades rurais e as pequenas cidades como produtoras de um estilo de vida e de uma atitude mental essencialmente comunitárias – no sentido estrito da palavra – calcadas em relações solidárias, arraigadas e com forte apelo emocional, traduzidas sobretudo no apego às tradições e a normas de conduta preestabelecidas, o que impede ao “homem rural” transitar livremente pela multiplicidade e dinamicidade da metrópole.

57 SEVCENKO, Nicolau, op. cit.; SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental.

58 DEAN, Warren. A industrialização durante a república velha. In: FAUSTO, Boris (Dir). História geral da civilizaçãobBrasileira. Tomo 3, v. 8, p. 252.

59 BEIGUELMAN, Paula. A crise do escravismo e a grande imigração. p. 46.

60 LENHARO, Alcir. Sacralização da política. p. 114.