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Complemento do artigo: Santos, Alemães e o Cemitério Protestante: Colônias estrangeiras e Patrimônio cultural.
Haroldo Leitão Camargo
janeiro/2007
 
Pois bem, por aproximadamente dez anos, antes da existência do Paquetá, o Cemitério dos Protestantes, ainda que particular, talvez fosse uma das únicas possibilidades para os enterramentos entre os estrangeiros – ou filhos de estrangeiros eventualmente nascidos em Santos – e não apenas os originários das confissões reformadas. Portanto, a tolerância dos protestantes germânicos em relação aos católicos da mesma origem pode efetivamente ser comprovada, não é mera retórica ou discurso.

Antes da fundação do Germania-Santos, em número maior que ingleses e uns poucos americanos, tudo indicaria que o Cemitério dos Protestantes, denominação oficial, era no imaginário de germânicos e santistas, de fato, o Cemitério dos Alemães. Ao menos durante um lapso de tempo. Depois se transformou em Cemitério dos Ingleses ou até, Cemitério dos Estrangeiros, mas isso já é outra coisa.





Colônias estrangeiras e Patrimônio

No âmbito daquilo que reconhecemos como colônias estrangeiras em Santos, poderíamos tomar como exemplo a que também foi citada por Garcia Redondo, a portuguesa, para aferir e identificar a autoconsciência do estrangeiro. E, como se falou de estruturas simbólicas, podemos nos perguntar por meio do quê, se faz concretamente a intermediação ou, se manifesta essa autoconsciência. No caso dos portugueses creio que é possível apontar para a Beneficência Portuguesa, ou como se designava, o Hospital Português. Claro que se trata do primeiro edifício, na Vila Nova, próximo do Paquetá e do próprio Cemitério Alemão.

Em se tratando dos portugueses poderia soar inusitado, na medida em que as Misericórdias que têm por modelo a de Lisboa, são talvez, as mais veneráveis instituições assistenciais e hospitalares. Todavia, elas, e a que se consideraria a mais antiga no Brasil, a Santa Casa de Santos, foram apropriadas num processo mais que secular, no tecido histórico brasileiro. Após a independência, essa é uma Instituição com profundos vínculos locais, não é mais portuguesa. A Beneficência, por sua vez, surgiu como meio de satisfazer necessidades dos imigrantes, que já não mais se confundem com o estatuto jurídico-político brasileiro. Independente da etnia, língua, religião e costumes quase iguais ou, muito semelhantes, entre brasileiros e portugueses, algo sempre irá indicar, – até os falares – para eles e para os outros, que são estrangeiros. Assim, esse Hospital, tem a eficácia de um símbolo da terra de origem e dos seus imigrantes. Mas, embora de fundação estrangeira, atendia a necessidades dos homens, daquele espaço e daquele tempo, no sítio em que foi criado. Traduz uma relação dialética entre as origens dos seus criadores e a própria cidade. Como tal, a ela pertence. Não é, entranhadamente, território estrangeiro como os consulados, as missões e as embaixadas. E ainda essas, na suas características morfológicas, estão circunscritas e condicionadas localmente, onde quer que se situem 30. A Beneficência é parte integrante do processo histórico santista e como tal, um bem do seu patrimônio cultural. Seja pela sua bela edificação atual no Canal 2, como pelas relações que entreteve e entretém com a comunidade dos imigrantes e seus descendentes, assim como pelas relações, num âmbito mais amplo, com a sociedade em Santos.

Até agora, não há grandes dificuldades para o entendimento: trata-se de estrangeiro, mas muito próximo e, de patrimônio edificado tangível – esperemos que assim permaneça – e não, daqueles que também estrangeiros, são ao contrário distantes e, cujos bens patrimoniais desapareceram das vistas, com proprietários expulsos e varridos da memória. Mas, também no caso deles, a relação com o espaço num determinado tempo dado, os bens patrimoniais à cidade pertenciam. Faziam parte de sua história como esse cemitério, que só pôde existir em razão das peculiaridades dos seus fundadores, articuladas às singularidades locais e às ordenações legais brasileiras em tempos da monarquia.

É certo que ao se falar de cemitérios podemos imediatamente invocar até visitas guiadas para conhecer a arte tumular. Impossível falar disso no caso dos cemitérios protestantes, que com algumas poucas exceções têm como marcos apenas lápides e inscrições, e no mais, formas simbólicas e evocativas – dependendo da confissão – de figuras arquitetônicas destituídas das suas funções estruturais precípuas. Mas, nessas condições, quer sejam ainda existentes ou tenham desaparecido, todos eles têm história. Conseqüentemente, bens patrimoniais não são apenas os visíveis, de pedra e cal. E, independente da arqueologia histórica convencional, cuja contribuição é fundamental para o conhecimento, ainda há documentação que, vindo à luz, reinterpretada, pode reavivar a memória e justificar os vínculos dos bens patrimoniais e dos alemães com a cidade.

Como já havia aludido, há outras instituições também desaparecidas ou apropriadas para outros fins. È o caso, além do Germania, da Associação de Tiro, a Schützen-Verein, conhecida como clube do Bugre, em São Vicente desde 1886. Finalmente, sem citar as instituições de menos importância, a Deutsche Schule-Santos, Escola Alemã de Santos, semelhante a sua congênere paulistana, o atual Colégio Visconde de Porto Seguro. Infelizmente, nenhum dos dois edifícios onde a Escola funcionou desde 1903, subsistiu.

De um lado é possível reconhecer que efetivamente com a 2a. Guerra e o engajamento militar do Brasil e, sobretudo, com o temor e repúdio ao nazismo, se tenham dispersado os proprietários, ocupado edifícios e, tudo tenha submergido em esquecimento. De ambos os lados, a memória tornou-se penosa. Mas há, além disso, um elemento subjacente à escolha dos bens patrimoniais que é um certo conceito passadista de história, amparado num nacionalismo militante, que tende a rejeitar o “estrangeiro” como espúrio. Consideração absolutamente vesga, na medida em que é o meio onde se implantam essas instituições e edificações, que as solicita.

Num outro espectro, corolário desse nacionalismo, se manifesta esse mesmo conceito conservador, como o vetor da história oficial. Ao contrário do que se poderia imaginar ele também pode conviver internalizado junto a concepções sofisticadas de preservação e reabilitação, mas não tão ponderadas nas disposições para o uso dos bens preservados.

Quando da solicitação para o tombamento da Fortaleza da Barra Grande na ilha de Santo Amaro é possível constatar no parecer, já bastante antigo, que a despeito de ser favorável ao tombamento, Lúcio Costa nada tinha a opor quanto à instalação de um Yacht Club no local porque, acrescenta, o Forte “não está vinculado a nenhum fato particular de relevância histórica” 31. Então, fica implícito, que há nos tombamentos, dois tipos de espaços. Conseqüentemente um deles é sagrado em razão de grandes acontecimentos, destinado a museificação nacional ou regional, vedado, portanto, a qualquer outra ocupação menos “nobre”, com o quê, é impossível concordar. Por outro lado, poder-se-á objetar que o parecer envelheceu, e essa não é mais a concepção vigente. Indiscutivelmente, o discurso mudou. Quanto às práticas, é discutível. Do núcleo das concepções nada mudou, menos ainda, quanto às repercussões desse mesmo núcleo de pensamento em outras instâncias que, diga-se, é a manifestação de saber técnico de sabor ideológico.

O problema real, em decorrência, é o fato dessa concepção cristalizada de espaço de viés quase religioso, ao distinguir o profano do sagrado, apreendido nessa infra-estrutura processual de classificação de “fatos de relevância histórica”, tornando-o altar de celebrações oficiais da nacionalidade, converter tudo mais, hierarquicamente, no resto. E em adição, excluir “o estrangeiro” que não está, nem mesmo entre o resto. Não é preciso dizer que esse conceito de “nacional” – ao que se segue nessa mesma linha o “regional” – elimina o “estrangeiro”, como o estranho àquilo que é legítimo. Primeiramente o faz com os homens, depois com coisas, entre as quais, as de pedra e cal. Simplesmente nega-lhes a história. Ele, o “estrangeiro”, e suas coisas aparecem apenas como curiosidade, no rodapé das efemérides nacionais ou regionais. E, entre suas coisas, aqui de forma restrita, estão suas crenças religiosas e respectivas edificações. Ora, se estou voltado para o conceito do nacional apoiado naquela perspectiva historiográfica conservadora, nada mais posso ver senão os exemplares construídos das igrejas católicas, não existem sequer as protestantes e ortodoxas que também são cristãs, ou os centros espíritas, os terreiros, etc. Por serem ainda mais “estrangeiras” menos visíveis seriam as sinagogas, as mesquitas, etc. Estranhamente, prevaleceria o espírito da Constituição monárquica de 1824, na vigência da última, e relativamente recente, Constituição republicana de 1988.

Há um outro aspecto ainda, no que tange a esse paradigma conceitual de patrimônio que, no mais das vezes, é o modelo, para a construção e institucionalização de órgãos estaduais e municipais congêneres. Nele se apoiando, às vezes, apressada e acriticamente, enquanto oportunamente se descentralizam e se tornam regionais esses órgãos, paradoxalmente tornam-se, apesar de novos, portadores de preconceitos por meio de velhas idéias. Que não são más por serem velhas, mas inadequadas. Em suma, é o novo e os equipamentos são high tech, convivendo com um conceito de história que coleciona fatos e personagens congelados, acima do bem e do mal, aureolados da pátina do tempo.

Finalmente, isso também distorce e estimula as aspirações de reprodução desses mesmos objetivos, dos grandes eventos, em instâncias regionais, perpetuando um processo de re-construção e re-invenção historiográfica, da mesma mitologia de grandes feitos por meio de heróis locais – e por extensão da modesta contribuição dos bens patrimoniais – para alçá-los às alturas do panteão oficial ou, em circunstâncias materiais, com móveis e imóveis, construídos como exemplares dignos de comparação com o melhor barroco...

Equívoco que poderia ser resolvido absorvendo, de fato, o conceito de que todos os indivíduos vivem e fazem história, sem necessariamente serem heróis e praticar grandes feitos. No caso dos estrangeiros, numa referência restrita apenas ao século XIX, o que poderia ser mais importante que a valorização do trabalho livre numa sociedade escravista?
 
30 O exemplo mais flagrante disso é o edifício da embaixada brasileira em Roma: o Palazzo Doria Pamphili em Roma, um magnífico exemplar, no contexto do urbanismo, arquitetura e escultura, do barroco romano, da Piazza Navona. Do Brasil, distingue-se apenas a bandeira asteada no mastro.

31 Pessôa, José (org.). Lúcio Costa: Documentos de Trabalho. 2a edição. Rio de Janeiro: Iphan, 2004. Cit. p. 96. Parecer DET: 21/09/1950.