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Artigo
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A Trilha da Fazenda Cabuçu na ótica de visitantes e moradores
Daniela Santana do Nascimento1 e Greicilene Regina Pedro2
 
RESUMO
A percepção que se tem das áreas naturais encontra-se em constante mudança. Identificar a interpretação que visitantes e moradores têm do ambiente da área da Fazenda Cabuçu e do atual modelo de exploração de lazer e turismo do local ajuda na discussão da sua adequação à filosofia central do Ecoturismo, como atividade geradora de um desenvolvimento sustentável.

ABSTRACT
The perception of natural areas is constantly changing. Identifying Cabuçu Farm’s visitors and residents’ interpretations of its environment and of the current model of exploration of leisure and of local tourism exploration helps in the discussion about its adequacy to the Ecotourism philosophy, as an activity which generates sustainable development.

Introdução
O município de Santos, localizado no litoral do Estado de São Paulo, a 68km da capital, apresenta como principais atividades econômicas: a portuária, o turismo, o comércio e a pesca.

A proximidade com a capital, aliada as facilidades de acesso - inicialmente através da ferrovia, inaugurada em 1867 e posteriormente com as rodovias Anchieta (SP-150) e Imigrantes (SP-160) - fez surgir ainda no século XIX, a atividade turística na região (AFONSO, 1999, p.62). Tradicionalmente, o turismo concentrou-se na porção insular do município, caracterizando-se pela exploração dos seus 7 km de praia.

Com a deterioração de aspectos ambientais como balneabilidade das praias, aliada ao desenvolvimento de outras estâncias que oferecem os mesmos tipos de atrativos, desencadeou-se um processo de declínio da cidade como destino turístico.

Atualmente, no intuito de reverter esta situação, busca-se o desenvolvimento de uma personalidade singular para a cidade, nos moldes apresentados por Morgan (2001), calcada em suas características geográficas, históricas e culturais. Neste contexto, as potencialidades da Área Continental de Santos, passaram a serem discutidas, haja vista sua grande extensão (231,6 km2) e riqueza em recursos naturais que oferecem uma opção de lazer diferenciada.



Mapa de Santos destacando a área continental do Município.
Fonte: PMS

Atualmente, algumas trilhas são oferecidas como roteiro ecológico, dentre estas, a trilha da Fazenda Cabuçu, objeto escolhido para estudo, por tratar-se do destino mais procurado.

O objetivo deste trabalho é identificar como o visitante e a comunidade local percebem esta área e seu aproveitamento turístico, além de discutir se este segue os princípios de sustentabilidade, característica inerente ao ecoturismo. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa piloto, baseada na aplicação de questionário para alguns visitantes da trilha, moradores da Fazenda, além de comerciantes e líderes comunitários do bairro Caruara (maior núcleo populacional nas proximidades da trilha).

O Ecoturismo
Atualmente, o turismo privilegia o meio ambiente na difusão de destinações e produtos turísticos, favorecidos pela preocupação com as questões ambientais, a partir das décadas de 70 e 80. Outros fatores, como a necessidade de descanso físico, a vontade de conhecer novos lugares e fugir dos grandes centros urbanos também reforçam esta tendência (TULIK,1992,p.23). O ecoturismo surge como proposta alternativa destinada a atender as necessidades deste público.

A Embratur, nas suas diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo, define-o como "um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável o patrimônio natural e cultural; incentiva a sua conservação, e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações locais".

É neste sentido que o termo será doravante utilizado neste trabalho, pois tem sido evidente certo grau de distorção sobre o que vem a ser Ecoturismo, porém, três pontos parecem ser consensuais: planejamento sustentável, educação ambiental e Inclusão social (NEIMAN).

A Área Continental de Santos
A Área Continental de Santos é separada da parte insular pelo Estuário e faz divisa com os municípios de Cubatão, Santo André, Mogi das Cruzes, Bertioga e Guarujá. Da área total, 135,18 km2, estão inseridos no Parque Estadual da Serra do Mar, que foi criado pelo Decreto Estadual nº10251 de 30 de agosto de 1977 (é uma área de reserva biológica).

As planícies, morros e encostas da Serra do Mar são drenados por rios que nascem na Serra, cortam a planície e deságuam na Baía de Santos através do Estuário ou no Canal de Bertioga (SETUR, 2002).

O acesso rodoviário é feito através da rodovia Dom Domenico Rangoni (Piaçaguera-Guarujá, SP-155) e da rodovia Prestes Maia (Rio-Santos, BR-101).

A área continental antes do desembarque dos portugueses, a região era há muito tempo ocupado por indígenas, fato que é comprovado pela existência de sambaquis nas proximidades da rodovia Piaçaguera-Guarujá e do Canal de Bertioga (FRANCISCO, 2000).

Apesar da proximidade com o pólo industrial de Cubatão, o porto e áreas densamente povoadas, a área apresenta boas condições de conservação e importantes ecossistemas de Mata Atlântica (PMS, 1994). Esta situação deve-se também, ao relativo isolamento pela falta de integração física entre a área continental e a Ilha de São Vicente onde se localiza a concentração urbana de Santos cuja população, em sua maioria, a desconhece. Assim como desconhece sua importância ambiental e potencial de desenvolvimento sócio-econômico.

A Fazenda Cabuçu
1. Histórico. Localizada às margens da Rodovia Rio-Santos e propriedade particular do grupo Sete Lagoas, a fazenda teve grande importância histórica na época do Brasil Colonial. Segundo o historiador Francisco Martins dos Santos, a Fazenda Cabuçu teria abrigado uma aldeia de catequese, fundada pelos padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, dedicado à conversão de indígenas.

Durante o século XX, a fazenda foi utilizada economicamente para a extração de madeira, pela necessidade de combustível durante a Segunda Guerra Mundial. Nas décadas de 50 e 60, a região foi ocupada por grandes plantações de banana. Todo produto colhido era transportado em vagonetes do Decauville, até o Rio Cabuçu, onde a banana era embarcada em direção, a maioria das vezes, ao Mercado Municipal. Atualmente não está sendo utilizada com fins lucrativos.

2. A trilha. O percurso da trilha é de aproximadamente 3 km de ida e o mesmo de retorno. Este é naturalmente dividido em 3 partes distintas: o primeiro trecho foi bastante alterado pelo homem e encontra-se na planície, junto a um pequeno rio, no segundo trecho, passamos por um antigo caminho onde circulavam os vagonetes que carregavam a produção de banana. Aqui se notam diversas árvores nativas que hoje tomaram o lugar das antigas plantações de banana, porém, observa-se ainda alguns resquícios de seu cultivo, além de outras espécies exóticas, como mangueiras, limoeiros e jaqueiras que foram plantadas na época da lavoura. No seu percurso, encontramos uma vegetação que comprova a capacidade de regeneração da mata (SETUR, 2002).

O último trecho da trilha é em meio à floresta fechada, com seu terreno irregular pelo vale do rio Cabuçu até chegar à cachoeira de mesmo nome com cerca de 10 metros de altura, formando uma piscina natural.


Foto da Cachoeira Cabuçu, mostrando a queda e uma das piscinas naturais.
Fonte: A Tribuna

O Bairro Caruara.
O bairro Caruara encontra-se na porção continental do município de Santos, no km 234 da BR-101, fazendo divisa com Bertioga. O início do parcelamento do local aconteceu nos anos 50 através da venda clandestina dos lotes chácaras, que variava entre 3500 e 7000m2. Tratava-se de um desmembramento de uma antiga fazenda chamada Caruara, que ocorreu judicialmente em janeiro de 1930. Isso ocorreu por meio das propriedades registradas no 1º Cartório de Registro de Imóveis de Santos, pelos registros nº14162 e 20116, da propriedade original de Gerônyma Alonso Soares.

Das 142 chácaras previamente registradas, 112 estavam em situação irregular, e nos anos 80, iniciou-se o processo de invasão e de sub-loteamento ilegal. De todas as chácaras oficialmente registradas, 50% delas estão fracionadas, seja por invasão, posse, usucapião, venda clandestina, etc. (CACON, 2001).

Atualmente, o trabalho de Regularização Fundiária está sendo desenvolvido pela Prefeitura através da Secretaria de Planejamento, estima-se que no bairro há um número de 300 moradias que afetam diretamente o meio ambiente, em relação a ocupações em áreas da União, da Petrobrás, do DNER, DER e de Preservação.


Ocupação do Bairro Caruara, assentamentos que comprometem o meio ambiente.
Fonte: CACON/PMS

O bairro é predominantemente residencial com população de 3.500 habitantes3, na sua maioria moradores fixos, porém, seus locais de trabalho ficam em municípios próximos como Cubatão e Bertioga, já que no bairro a oferta de emprego é quase nula.

A infra-estrutura do bairro é deficiente, os moradores contam com água e luz, mas não há sistema de escoamento e drenagem, nem tratamento de esgoto, sendo os mesmos feitos através de valas que seguem o alinhamento das ruas.

A parte comercial e de prestação de serviços do bairro encontra-se na Rua Andrade Soares, no final desta há um pequeno ancoradouro “o Portinho”, que fica às margens do Canal de Bertioga.


O portinho, localizado no final da Rua Andrade Soares, no bairro Caruara.
Fonte: SEPLAN / DESOE

Percepções da Natureza
Para Davidoff a percepção é o “processo de organização e integração dos dados sensoriais (sensações) para desenvolver a consciência do meio ambiente e de nós mesmos” (2001, p.140). Neste trabalho em que se analisa a percepção dos visitantes e moradores, sobre uma área em domínios da Mata Atlântica torna-se necessário um pequeno retrospecto da evolução da floresta e da visão que se tinha dela.

Segundo Warren Dean (1996) a exploração econômica do Brasil nos últimos cinco séculos, através de seus sucessivos ciclos – pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café e industrialização – significou a destruição de grande parte da floresta com um milhão de quilômetros quadrado e que hoje está reduzida a apenas 7% de sua área original.


Área de abrangência da Mata Atlântica no ano de 1500 e atualmente.
Fonte: Fundação Mata Atlântica / 2004


Essa exploração mostra a percepção que se tinha da floresta, símbolo do atraso, do subdesenvolvimento, do selvagem e que era vista somente como um obstáculo.

A Mata Atlântica era também, aos olhos do colonizador, um oceano verde sem limites, o que Pádua (2004) chamou de “mito da natureza inesgotável”. Dean também comenta breves relatos de naturalistas e viajantes de formação e origem européias na virada do século XIX, dentre eles, aquele do comerciante inglês John Luccock: “uma a uma, as criaturas e a vegetação da floresta podiam fascinar... mas o conjunto era acabrunhante e substituível por visões mais animadoras, isto é, paisagens – abertas, ensolaradas e antropomorfizadas”.

Na primeira metade do século XX, a maioria da população da região da Mata Atlântica em seu contínuo crescimento, encarava de maneira positiva a expansão do comércio exportador, dependente de matérias-primas da floresta, por vê-la como garantia de sua subsistência.

O desenvolvimento econômico das décadas de 50, 60 e 70 aumentava e, alguns integrantes da classe média adquiriram hábitos, como a observação de pássaros, cultivo de orquídea, excursionar, que os tornavam conscientes dos custos deste desenvolvimento.

Parece ter sido por causa desse público urbano que, questões ligadas ao meio ambiente começaram a ganhar espaço, ao menos na imprensa, mas a preocupação com a destruição da floresta já existia entre alguns intelectuais brasileiros desde o final do séc. XVIII (PÁDUA, 2004).

Diegues (1996) cita o surgimento, na Europa do início do século XIX, das idéias preservacionistas e do respeito às áreas selvagens, pois com a Revolução Industrial, a vida nas cidades que anteriormente era valorizada como sinal de civilização passou a ser criticada dada a deterioração do ambiente urbano causado pelas fábricas. A vida no campo passou a ser idealizada, sobretudo pelas classes sociais que não estavam diretamente envolvidas nas atividades agrícolas.

Já na segunda metade do mesmo século surgem as bases teóricas a legais para se conservar áreas naturais, com a criação do Parque Nacional de Yellowstone no Wyoming, estado norte-americano. Os preservacionistas norte-americanos propunham locais de conservação ambiental de grande beleza cênica, onde o homem urbano pudesse refazer as energias gastas na vida estressante das cidades e do trabalho monótono e apreciar a natureza selvagem, o mundo natural em seu estado primitivo, anterior à presença humana.

Nasce aí, para Diegues, o mito da natureza selvagem intocada, refletindo uma percepção das populações urbanas a respeito da natureza, muito diferente daquela das sociedades primitivas e tradicionais, onde há uma relação pessoal com o meio ambiente. Pois, ao contrário da idéia expressa neste mito, o homem chegou à Região da Mata Atlântica há cerca de 13 mil anos e interage com o meio desde então, primeiro como caçadores - coletores, depois como agricultores itinerantes. Dean afirma que a maioria da cobertura vegetal da Mata Atlântica quiçá toda a sua extensão, sofreu algum tipo de intervenção desde a chegada dos primeiros homens.

Apesar de toda discussão atual sobre a conservação da Mata Atlântica, uma pesquisa de opinião de 1987, mencionada por Dean demonstrou que 90% dos brasileiros que vivem nos antigos domínios da floresta nunca haviam ouvido falar dela.

Para Diegues, o “turismo ecológico” praticado em parques e reservas está imbuído desse mito de natureza selvagem e intocada. Além disso, mostra-se ainda mais elitista, pois, apenas aqueles que podem pagar tarifas especiais estão aptos a praticá-lo. A criação de áreas de preservação, suas restrições de uso, principalmente para as comunidades que tradicionalmente habitam a região beneficia, sobretudo os visitantes urbanos, acabam por causar conflitos.

No caso estudado, para os moradores locais, este turista ecológico, passa a ser uma possibilidade de renda.

A Percepção do Turista e da Comunidade Local sobre a Trilha da Fazenda Cabuçu. Estudo de Caso.
Para embasamento prático deste trabalho desenvolveu-se uma pesquisa piloto baseada na aplicação de um questionário, onde se procurou observar a percepção de visitantes e moradores locais a respeito da área da trilha e da sua exploração turística.

1. Visitantes. Acompanhou-se um grupo de 10 visitantes composto por estudantes, profissionais liberais, comerciantes e funcionários públicos, com idade variável de 14 a 48 anos e todos moradores da Baixada Santista.

Quanto à percepção do local, todos demonstraram preocupação moderada a grande com o meio ambiente e, seu objetivo principal era buscar contato com a natureza. Com relação à área continental metade já conhecia e os demais já ouviram falar.

Sobre o Parque Estadual da Serra do Mar, apenas uma pessoa soube responder a respeito de sua função, utilizando conceitos de conservação (fiscalização como atividade principal do Parque). A maioria dos visitantes, ao avaliar as conseqüências do Ecoturismo na área, não pensa em seus aspectos físicos ou nos moradores, respondendo que a maior conseqüência é o aumento da consciência ecológica do turista.

Quanto à percepção que o visitante tem da comunidade local, todos se referiram apenas aos moradores da Fazenda. Com relação aos efeitos do ecoturismo na comunidade, foram citados como aspectos positivos o aumento da consciência ecológica e a geração de renda e como negativos a presença de impactos como lixo, incômodo e degradação.

Quando indagados de como a comunidade poderia participar da atividade turística metade do grupo sugeriu a atividade de guia, enquanto a outra metade não tinha idéia formada.

Finalizando, todos gostaram do passeio, apontando como principais aspectos positivos o contato com a natureza e com novas pessoas, a distensão física e psíquica e o aprendizado sobre fauna e flora da Mata Atlântica. Quanto aos aspectos negativos, a falta de infra-estrutura para a recepção dos turistas como sanitários; vestiário; bebedouros e sinalização da trilha foram citados por todo o grupo.

2. Comunidade Local. Em relação à denominada comunidade local, identificamos dois subgrupos: o primeiro formado pelos moradores da própria Fazenda e o segundo por moradores do bairro Caruara.

O primeiro grupo é formado atualmente por apenas uma família, cujo marido é funcionário do grupo Sete Lagoas trabalhando como segurança, a esposa e três filhos. Os contatos dessa família com os visitantes são intensos, uma vez que estes grupos utilizam-se do sanitário de sua casa. São antigos moradores do bairro Caruara. O marido trabalha há cinco anos na área e mudaram-se há cerca de dois anos para a Fazenda.

Como aspecto positivo do local, citam a tranqüilidade em comparação com a vida na cidade e como negativo, a presença de ladrões e caçadores. Mostram-se preocupados com o meio ambiente, mas desconhecem a presença do Parque Estadual da Serra do Mar. Como atitudes para preservação citam a preocupação em não cortar árvores ou jogar lixo no rio, aliás, a destinação do lixo é um grande problema para a família uma vez que não há coleta no local. A solução encontrada é queimar o que é possível e, o restante é jogado na própria mata.

Com relação ao aproveitamento do sítio para o lazer, praticamente não fazem uso da área da trilha e da cachoeira, esporadicamente pescam em rios próximos e ao serem indagados sobre a atividade turística, afirmam conhecer o ecoturismo e acham a atividade importante para o local. Assumem que a atividade influencia suas vidas e apontam como aspectos positivos, o contato com novas pessoas e como negativos, a bagunça realizada por alguns grupos de visitantes, principalmente estudantes adolescentes, que chegam até a jogar lixo no rio.

Quando indagados sobre a possibilidade de desenvolver atividade econômica relacionada ao turismo, responderam que pensam em oferecer alimentos e bebidas aos visitantes, mas, citam a falta de capital inicial como obstáculo para o empreendimento.

O segundo grupo entrevistado é constituído por moradores do bairro Caruara, escolhidos por desenvolverem atividades comerciais e por serem líderes comunitários. Neste grupo, encontramos pessoas residentes no local há pelo menos cinco anos e que apontam como aspecto positivo da localidade o sossego e, em um dos casos, a oportunidade de desenvolver alguma atividade econômica. Como aspecto negativo, há a falta de infra-estrutura (saneamento básico, escola de educação infantil, acesso à ilha) e também, a falta de oportunidade para jovens.

Com relação à Mata Atlântica mostram-se muito preocupados e destacam os cuidados com a destinação do lixo como a principal delas. Sintomaticamente, quando questionados a respeito da preservação da fauna e flora, responderam que isso não mais existe ali. Na questão sobre o aproveitamento da área para lazer dos locais, a mesma pessoa disse nunca ter se utilizado das trilhas ou cachoeiras da região. Uma das razões da trilha da Fazenda Cabuçu não ser utilizada, é a necessidade de pagamento para o acesso. Outros locais, porém, são aproveitados, como a cachoeira do Castelinho e a pesca via Portinho.

Já quando questionados sobre o Parque Estadual da Serra do Mar mostraram conhecimento da sua existência e da função de preservação do meio ambiente. Conhecem o ecoturismo e acham atividade turística muito importante para a área. Declararam que o turismo tem influência em suas vidas e apontam como aspectos positivos: as possibilidades de desenvolvimento das atividades comerciais do bairro. Um aspecto negativo citado foi o dos dejetos que alguns turistas deixam, principalmente no Canal de Bertioga.

Além da atividade comercial já existente atualmente, pensam ainda em explorar outras possibilidades, como uma pousada, por exemplo, e a comercialização de artesanato, mas, uma vez mais, o capital inicial para eventuais empreendimentos é apontado como obstáculo. Citam também, como forma de envolvimento da comunidade na atividade de ecoturismo, o treinamento de jovens moradores para atuarem como guias.

Para complementarmos as informações obtidas, aplicamos o questionário abordando o mesmo tema para a monitora que acompanhou o grupo entrevistado. Ela está envolvida, há quinze anos, em experiências com ecoturismo e há dez, desenvolve o roteiro da Fazenda Cabuçu.

Quando questionada sobre os aspectos abordados na visita, citou o respeito à natureza, ecossistema e biodiversidade da Mata Atlântica. Disse que a composição dos turistas, abrangendo diversas variantes, é de crianças desde 5 anos, estudantes à partir de 7 anos, famílias, grupo de amigos e fotógrafos. Declarou ainda que, a despeito das vantagens trazidas pelo ecoturismo na região, só se obterão resultados significativos, se o fluxo de visitantes for maior, ou com a maior permanência de dias no local. Cita também, aspecto positivo dos turistas na área: sua presença inibe a ação predatória de palmiteiros e caçadores. Como desvantagens, fala da degradação ambiental, caso não haja um sério controle das ações que levam à mesma. Apesar de responder afirmativamente sobre a possibilidade de participação da comunidade na atividade de ecoturismo não esclareceu ou deu sugestões, de como ela se daria.

Quanto as maiores dificuldades encontradas pelo turista citou a falta de infra-estrutura, notadamente a falta de sanitários e como sugestões para incrementar o ecoturismo na região, fala da necessidade de união entre as empresas que operam o roteiro para investir em melhorias como: acordo com proprietários para construção de infra-estrutura básica (sanitários, vestiários, bebedouros, etc.); investimento na divulgação do roteiro que também deve ser feito pela prefeitura e investimento na preparação de monitores locais com subsídios da Embratur.

Considerações Finais
Através da análise dos questionários aplicados, observou-se que, de maneira geral, os visitantes da trilha possuem o perfil tradicional do turista ecológico, pois procuram o contato com a natureza e a fuga da rotina das cidades. Também reproduzem de certa maneira, o mito da natureza intocada quando se referem à função do Parque Estadual da Serra do Mar, como sendo de fiscalizadora e comentando que a forma da comunidade participar da atividade turística é ajudando a preservar a área. Ao analisar os efeitos do turismo no local, demonstraram uma visão centrada no próprio turista, deixando de avaliar aqueles causados à trilha e aos habitantes locais.

Os moradores da região ressaltam, por sua vez, a tranqüilidade do local como o aspecto positivo mais importante, mas, reclamam da infra-estrutura urbana, ainda precária. É possível que boa parte destas dificuldades também seja sentida pelo turista que visita o bairro, ou seja, um sério fator limitante para a simples presença deste, principalmente devido à dificuldade de acesso e ao desconhecimento de suas potencialidades.

A preocupação com o meio ambiente é uma constante, refletida principalmente na questão da destinação do lixo. Porém, parece ser uma preocupação urbana e pouco se falou da interação com o ambiente natural do entorno, com a marcante exceção da relação com o Canal de Bertioga.

Apesar de fazerem uso de áreas próximas para seu lazer, em cachoeiras e pescarias, a trilha da Fazenda Cabuçu não é utilizada, pois só pode ser acessada através de agências de turismo cadastradas, mediante pagamento de taxa. Todos acham importante a atividade turística na região e só não aproveitam melhor a oportunidade de ganhos econômicos por falta de capital inicial.

Das questões levantadas pela monitora de turismo destaca-se a deficiente infra-estrutura, o pequeno fluxo de turistas e a não permanência destes por um maior período.

Partindo destes relatos conclui-se que a atividade na trilha da Fazenda Cabuçu não deve ser considerada como Ecoturismo, uma vez que não atende a um princípio básico que é a promoção do bem-estar da comunidade local. Também não se estabelece como um produto acabado, no sentido de carecer de uma parte importante da oferta: a infra-estrutura. É sabido que alguns destes problemas devem-se ao fato de a área em questão, pertencer a uma empresa particular, que não demonstra maior interesse no desenvolvimento da atividade. Talvez, não possa aquilo que lá se faz, sequer ser denominada de turismo, uma vez que a atividade é desenvolvida no curto período de algumas horas, não necessitando da permanência no local visitado ou no município sede. Poderia então ser chamado de excursionismo ecológico, ao menos até que seja estruturado por meio de planejamento.
 
1Arquiteta e Urbanista formada pela UNISANTOS, atualmente cursa “Cidade e História” na UNISANTOS.
2Enga Agrônoma formada pela UFLA-MG, especialista em Gestão Ambiental pela FSP/USP, atualmente cursa “Cidade e História” na UNISANTOS.
3Fonte: SEFIN - REGULARMENTE INSCRITOS NO CADASTRO COMERCIAL DO MUNICÍPIO - Base: AGO/2001.